20061215

Rafael Toral: 'Space'

No passado dia 21 de Outubro de 2006, no espaço NEGÓCIO, da Zé dos Bois, em Lisboa, Sei Miguel e Rafael Toral apresentaram os seus últimos trabalhos, num concerto que adoptou o título
‘GARDEN : SPACE : BEYOND’.

Rafael Toral, nascido em Lisboa em 1967, é compositor, guitarrista e engenheiro de som. As suas primeiras actuações remontam a 1984, e o seu trabalho tem-se centrado no uso da guitarra eléctrica como fonte duma matéria sonora abstracta, originária do Rock, explorando as possibilidades do ambiente e da improvisação. Admirador das obras de John Cage ou de Brian Eno, os seus interesses têm-se dirigido também para os Sonic Youth e Alvin Lucier.


A par do seu percurso como músico e do seu importante pioneirismo no campo da electrónica experimental, foi também ele que organizou a ‘Antologia de Música Electrónica Portuguesa’ [Plancton, 2004], que faz a história da electrónica em Portugal desde 1972. Esta compilação junta na mesma edição músicos e grupos experimentais como Carlos Zíngaro, Anar Band [Jorge Lima Barreto e Rui Reininho, o vocalista dos GNR], Telectu [do mesmo Jorge Lima Barreto e Víctor Rua], Nuno Canavarro, Nuno Rebelo, No Noise Reduction e o próprio Rafael Toral, a compositores contemporâneos como Cândido Lima, Filipe Pires, Jorge Peixinho, Isabel Soveral e João Pedro Oliveira, entre outros.

Voltando ao início do seu percurso como músico, Rafael Toral integrou grupos que se podem enquadrar na genealogia Pop/Rock, como sejam os SPQR, nos anos 80. No entanto, em todos transparecia como característica dominante o cariz experimentalista da música. Referimos, a este propósito, a sua passagem pelos Pop Dell’Arte, apartir de 1986, de onde, conjuntamente com João Paulo Feliciano - este também um conhecido artista plástico [actualmente com uma exposição retrospectiva na Culturgest] - criou em 1990 o projecto No Noise Reduction e o álbum ‘On Air’ [Ananana, 1996], resultado de actuações ao vivo da dupla de guitarristas em rádios locais. Na primeira parte deste disco, Toral e Feliciano manipulavam o que chamavam de ‘brinquedos electrónicos’, como pistolas de laser, telemóveis e "beatboxes" de karaoke, transformados e preparados de modo a reagirem ao contacto dos dedos. Na segunda parte, voltavam às guitarras, ainda que para as utilizar com a mesma atitude de ‘bricolage’.

> No Noise Redution: Rafael Toral e João Paulo Feliciano

O trabalho em torno das possibilidades da guitarra, já não no seu sentido instrumental mais convencional, mas como gerador de múltiplas sonoridades de cariz mais abstracto, levou-o, inclusivamente, a tocar com os Sonic Youth, Jim O’Rourke, Phil Niblock ou John Zorn.

Desde aí, Rafael Toral vem, progressivamente, desenvolvendo uma concepção que adopta o ruído como matéria-prima, e deriva da "ambient music" tal como foi enunciada por Brian Eno, sob a forma de paisagens sonoras que vão evoluindo lentamente, numa atitude claramente minimalista.

O primeiro disco de Rafael Toral assinado em nome próprio foi ‘Sound Mind Sound Body’, de 1994, que o crítico de música Rui Eduardo Paes classificou como o ‘primeiro disco de música ambiental propriamente dita tocada por um português’.

No ano seguinte lança ‘Wave Field’, que lhe permitiu o reconhecimento internacional e que fosse considerado como um dos guitarristas mais talentosos e inovadores da década de 90.

O disco "Aeriola Frequency" [Perdition Plastics, 1998] é representativo deste trajecto, em termos de processo de trabalho, que se iniciou em níveis de improvisação e passava por vários estádios de montagem, mistura, processamento e depuração, tendo a guitarra como ponto de partida e o computador como meio ou filtro exploratório dos sons gravados.

O penúltimo álbum de sua autoria, que data de 2001 e se intitula ‘Violence of Discovery and Calm of Acceptance’, culmina este ciclo claramente enquadrado no ‘ambient’, e que explora as possibilidades de ‘massas de som’ em evolução. Com este trabalho Toral entendeu que a pesquisa estava encerrada e que, a continuar, correria o risco de se repetir ‘e repisar um fórmula já testada e aprocada’.

Em 2004, Toral iniciou um novo ‘programa de trabalho’, que deixa, para já, as guitarras de parte, e onde os dispositivos electrónicos assumem maior importância. No âmbito deste denominado 'Space Program', o músico esteve presente em várias cidades dos E.U.A, designadamente em Nova Iorque, na apresentação de ‘Space Study 1’ [computador e luvas de controlo equipadas com sensores] a solo ou em colaboração com Margarida Garcia.
Este trabalho caracteriza-se por utilizar a própria perfomance como matéria de composição, seja ela derivada de gravações ao vivo, em estúdio ou ensaio. e por utilizar instrumentos electrónicos concebidos e construídos pelo próprio Rafael Toral, explorando a especificidade da linguagem musical própria de cada instrumento, baseada no seu som puro e não na utilização de escalas de notas.

Esta experimentação - bem como a proximidade a Sei Miguel e a adopção do seu sistema musical, que se estrutura em torno do som e do silêncio como elementos primários, dispensando toda a teoria musical convencional - tem-no aproximado do universo do jazz, sendo aí também reconhecido como protagonista incontornável.

O projecto ‘Space’, que agora apresenta num primeiro CD homónimo, representa, portanto, uma mudança de abordagem, que se tornou mais performativa. É ‘um disco de lançamento, de afirmação, de inauguração’, diz, e nele se abre uma inovadora relação entre o o jazz e a electrónica – ‘jazz em electrónica’ ou ‘uma forma de jazz que emerge de dentro da electrónica’, como Toral o define.

O artigo ‘segunda vida’, de Pedro Rios, publicado no ‘Y’ [público] de 22 de Setembro, e a entrevista que concedeu a Inês Menezes, no programa ‘Fala Com Ela’, emitido na Radar FM em 14 de Outubro, permitiram apreciar a consistência e consciência artística de Rafael Toral, numa invulgar lucidez em relação às várias fases, meios e objectivos a que se propõe na sua investigação e atitude criativa. O programa ‘Space’ está delineado, terá vários capítulos e será concretizado com vários suportes e materiais sonoros.

Recomendamos vivamente este ‘Space’, e uma visita ao sítio de Rafael Toral, de inegável qualidade gráfica e apurada sensibilidade estética, onde poderão, para além de informações gerais, ler o artigo de 6 páginas que sobre ele foi publicado na revista ‘Wire’ de Outubro, e apreciar vídeos das suas perfomances no âmbito deste programa ‘Space’.

RAFAEL TORAL - 'Space Study 1 live'

WORDSONG - '(Brave) Save my soul'

> vídeo de autoria de Rita Sá

20061204

portugal experimental

Antes da década de 80 do séc. XX, a realidade da nova música portuguesa centrava-se nalguns escassos músicos e passava, sobretudo, pela prática das actuações ao vivo, sendo que poucas obras ficaram registadas em disco. Só daqueles anos 80 ficou alguma herança editorial ilustrativa da produção nacional nesta área. A título de exemplo, duas das obras mais relevantes desta época, ‘Plux Quba’, de Nuno Canavarro e ‘Música de Baixa Fidelidade’ de Tó Zé Ferreira, foram lançadas por uma editora independente, da área do Rock - a Ama Romanta de João Peste [Pop Dell’Arte].
Nos anos 90 a situação alterou-se consideravelmente com a generalização da tecnologia digital, já que o acesso à edição discográfica se tornou mais fácil, devido à evolução tecnológica e ao embaratecimento dos equipamentos. Por outro lado, um maior número de músicos, vindos do rock, do jazz e da clássica, começou a dedicar-se às práticas experimentais. Este cenário completa-se com o surgimento de uma série de pequenas editoras discográficas, seguindo o pioneirismo da AnAnAnA.
Paralelamente a este contexto nacional, observou-se uma projecção conseguida no estrangeiro por um crescente número de músicos portugueses, como Rafael Toral, Ernesto Rodrigues, Carlos Bechegas, Rodrigo Amado, Vitriol [Paulo Raposo e Carlos Santos], @c [Miguel Carvalhais e Pedro Tudela] que se juntavam, assim, aos mais consagrados Carlos Zíngaro, Telectu [Jorge Lima Barreto e Vítor Rua] e Osso Exótico [irmãos David e André Maranha, Patrícia Machás, etc.]. Isto permitiu o facto inédito de etiquetas de outros países começarem a editar portugueses.
Neste início de milénio a realidade é consistentemente diferente, e verifica-se que existe uma actividade profícua no mercado alternativo da edição de discos, com exemplos de grande qualidade, que reflectem a grande dinâmica da nova realidade musical. Este facto é, aliás, frequentemente comentado na imprensa especializada estrangeira, tendo dado ocasião, inclusive, à realização em França e Itália de festivais exclusivamente programados com o experimentalismo luso.
Por cá, merecem destaque os Encontros de Música Experimental de Palmela, que tiveram no início do passado mês de Outubro a sua sexta edição, tendo-se consolidado no panorama português como um evento incontornável.
Para uma consulta de artigos sobre a nova música portuguesa, recomendamos o sítio de Rui Eduardo Paes, crítico de música, jornalista e ensaísta: